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Carta aberta a Scolari
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  Carta aberta a Scolari
« em: 23 de Novembro de 2007, 03:24 »
Esta não tem nada a ver com o nosso fórum... ;D ;D ;D


Carta aberta a Luiz Felipe Scolari

O senhor quer mesmo continuar?

Senhor Scolari:

Parabéns pela qualificação da Selecção portuguesa para a fase final do Europeu 2008. Num país que vive o dia-a-dia com a angústia do futuro, desgastado na sua auto-estima, inundado de uma mediocridade emergente, muito à custa do nosso saloísmo nacional, as alegrias que a Selecção Nacional de futebol têm proporcionado, na última década, a este povo, contribuem, em muito, para evitar um estado geral de depressão e de conformismo. O futebol português, através da sua Selecção, que o senhor dirige, com indiscutível competência, desde a alvorada deste novo século, tem sido um inusitado garante de haver cor no drástico cinzento da vida portuguesa.

Sinto, pois, como inquestionável, que deveria mesmo ser por aqui, por este elogio franco e honesto, que deveria começar. Independentemente do que se passar daqui para a frente, há certeza de que o nome de Felipe Scolari ficará na história do futebol português, a par de Otto Glória, outro brasileiro, esse mais carioca, mais festivo, mais animado, mas que também deixou âncora nos corações de Portugal. E por isso devemos estar gratos. Porque o povo português é justo e sensível aos que lhe abrem horizontes e vontades.

Dito isto, talvez, mesmo, o essencial que a história, mais tarde, guardará, deve também dizer-se, em nome de um futuro de continuado sucesso da Selecção, que será bom, será, mesmo, essencial que o senhor se interrogue, na serenidade do seu íntimo e no sossego da sua família, se sente suficiente entusiasmo para continuar a ser o seleccionador nacional. No fundo, o que se torna, agora, de vital importância, é saber se o senhor sente suficiente entusiasmo para continuar a dirigir a selecção de futebol de Portugal e, assim, admitir o dever de saber conviver com os portugueses e com a sua cultura, ou se está farto desta sua vida, que a nós, por vezes, parece, de facto, principesca e privilegiada, mas que a si, palmilhador de mundo, pode, apenas, parecer uma existência saturada e uma missão esgotada.

É que importa saber isso, num tempo em que é ainda muito honesto poder conhecer a sua mais íntima vontade.

Não vem mal ao mundo que o seu destino da Selecção Nacional se esgote aqui, carimbado com uma saudável quarta presença consecutiva da nossa Selecção numa fase final de um Campeonato da Europa, facto que é, como se sabe, inédito.

Não seria justo, por parte dos portugueses, violentá-lo numa espécie de sentimento de obrigação de continuar, se não for essa a sua mais séria vontade.

Portugal terá tempo de encontrar soluções e o senhor pode despedir-se em beleza, sem chegar ao extremo da irritação e do enfado. Sem chegar ao ponto de, se algum jornalista lhe perguntar o que comeu ao almoço, ficar à beira de um ataque de nervos por encontrar, nessa interrogação, a mais pérfida das intenções. Claro que o senhor poderia desejar continuar a ser o seleccionador de Portugal sem portugueses, ou, mais preciso, sem jornalistas portugueses. Mas isso, como o senhor sabe, é impossível. Poderia, ainda, se fosse noutro tempo da nossa história, pedir a sua excelência o senhor Presidente do Conselho de Ministros que fizesse uma adenda às gordas proibições públicas, no sentido de evitar que os jornalistas exercessem a sua função de comentar, opinar e, sobretudo, perguntar. Mas esse é um tempo que apenas nos faz pesar na memória o povo que fomos e, acredite, não é previsível que volte, por muitas razões de queixa que possamos ter desta nossa, por vezes, tão irresponsável e folclórica democracia.

Ao vê-lo perder a cabeça com perguntas do género: «porque acha que a Selecção não se qualificou com mais brilhantismo?», não posso deixar de lhe dizer que a única justificação plausível é a de que está farto de aturar os portugueses, mais à sua mania colonial de que ainda espetam padrões nas praias do mundo, mesmo que não esteja farto da sua vida simpaticamente calma ao sol de Cascais.

Há uma realidade, mesmo que cruel, nas mil dúvidas que se podem levantar. Apesar de tudo, apesar do muito que fez pela Selecção, a Selecção, mesmo que pesarosa, pode passar sem Scolari, Portugal é que não pode passar sem os portugueses. Ou o senhor se conforma com isso, ou diz-nos adeus e, prometo, Portugal inteiro vai despedir-se de si com lágrimas e com aquela comiseração tão portuguesa de ficar na praia a ver partir os seus heróis.

Mas pode ainda optar por prosseguir. E isso seria bom para a Selecção, sobretudo, se sentir, no íntimo, esse desejo e esse apelo. Mas, se assim for, e oxalá que seja, não vejo outro modo que não seja o de respeitar a função e a missão dos jornalistas. Tem o direito a não os amar, e a parte boa é que não precisa de pedir nenhum em casamento; a parte má é que os jornalistas vão continuar a fazer perguntas e a querer ouvir as suas respostas, porque, bem o sabe, não é por mera curiosidade do sujeito que pergunta que a questão se coloca, mas por suposta e admissível curiosidade do povo, que a si mesmo tem dedicado suficientes provas de consideração e estima.

Julgo que me fará a justiça, senhor Scolari, de entender esta carta como uma carta honesta e sem perigos de areias movediças. Escrevo-a no momento certo em que julgo ser determinante saber da sua verdadeira vontade. Continuar ou não continuar, eis a questão que só o senhor poderá e deverá responder. Na certeza de que continuar significa assumir o que o glorifica e o que o tanto o incomoda. Com a sua experiência de vida, bem saberá, como eu, que nem tudo de que não gostamos podemos pôr na borda do prato.

VÍTOR SERPA

in A BOLA