Mudança de mentalidades
Por PAULO SOUSA
Quando aceitei o desafio do director de A BOLA, Vítor Serpa, para escrever nas páginas deste jornal, estava longe de pensar que iria chegar aos 50 artigos semanais. Parece que foi há uns dias que comecei a escrever o primeiro texto e agora já vou nos 50! Por um lado, tem sido um desafio enorme dada a responsabilidade que é expressar opiniões pessoais publicamente; por outro, um grande prazer escrever sobre temas que gosto e que espero tenham o efeito de provocar a discussão e a evolução do futebol do nosso país.
Um dos temas que maior interesse me tem suscitado é o futebol de formação. E não é por acaso ou por fetiche. É porque acredito que o futuro do futebol só poderá ser garantido pelo investimento na qualidade dos nossos jovens e crianças. É um tema crucial, extremamente complexo e que vale a pena debater com frequência. Sem futebol de base é impossível alimentar o futebol dos graúdos. Sem investimento na formação dos nossos pequenos craques não poderemos continuar a crescer no futebol internacional nem formar tantos jogadores de qualidade. Na semana passada, falei aqui do papel extraordinário que cabe aos pais no desenvolvimento e crescimento de um jogador ou de uma criança. Hoje, gostava de falar um pouco de outro agente fundamental para esse crescimento do jovem jogador — o treinador. Felizmente, já ouço muitas pessoas dizer que os melhores técnicos deveriam estar nas camadas jovens, o que é um sinal claro de mudança de mentalidades, já que tal comentário seria impensável há uns anos. Claro que o conceito de melhor treinador em futebol é muito relativo e essa frase não pode ser interpretada no seu sentido estrito. Mas sem dúvida que deveria haver uma aposta séria em técnicos qualificados para trabalharem no futebol juvenil. E esse investimento não pode passar apenas por um scouting eficaz, por um bom rastreio para encontrar os mais capazes. Deve também passar por um investimento financeiro considerável, ou seja, por uma aposta séria no profissionalismo desses treinadores. Em países com tradição no futebol de formação, como a França ou a Holanda, por exemplo, os treinadores das camadas jovens têm excelentes ordenados, que lhes permite estar tranquilos para investir na qualidade do seu trabalho, para continuar a sua formação, para dedicar todo o tempo a uma causa — formar jovens jogadores de futebol. Que é uma causa nobre, de extrema importância e que a médio/longo prazo trás resultados para os clubes e fundamentalmente para os jovens. Os clubes só têm a ganhar com esse investimento, pois é nas idades mais tenras que se consegue desenvolver melhor o talento das crianças, que se consegue mais resultados pela correcta estimulação, que se consegue criar melhores jogadores. Por sua vez, os jovens, independentemente de virem a alcançar ou não o sucesso enquanto futebolistas, tornar-se-ão, com certeza, pessoas mais capazes de enfrentar os desafios da vida futura.
É neste sentido que interpreto e concordo com a tal ideia de que os bons treinadores devem estar no futebol de formação. Agora, torna-se urgente passar das palavras à acção…
in A Bola
Este artigo do Paulo Sousa suscita-me esta questão: até que ponto o problema dos recursos humanos associados à formação (e custos a eles associados) foi devidamente ponderado na concepção do (tçao discutido) projecto de Academia?