Entrevista a António Salvador, no Público:
"Braga lutará pelo título quando os adeptos quiserem"
«O presidente do Braga explica a aposta em Rogério Gonçalves e garante que os objectivos para esta
época permanecem intactos. Em três anos e meio de liderança, António Salvador fixou os minhotos nos lugares cimeiros e granjeou o respeito do futebol português. Mas diz que o número de associados está longe
de corresponder ao crescimento do clube.»
Por Matilde Rocha Dias
«Trabalhador compulsivo e dono de um discurso afirmativo, António Salvador é um dos protagonistas mais activos do futebol português, ele que assumiu a liderança do Braga com 32 anos e praticamente como um desconhecido. Nas vésperas da recepção às "águias", o dirigente comenta as mudanças no comando técnico e traça objectivos para o clube que tem consolidado como quarto "grande" e que conduziu à fase regular da Taça UEFA. Empresário de sucesso - fundou a empresa de construção civil Britalar -, tem como preocupação a melhoria da marca Braga e afirma que a dupla Rogério Gonçalves-Jorge Costa "é a ideal para dar sequência ao engrandecimento do clube".
PÚBLICO - O Braga mudou de equipa técnica há uma semana. Que reflexos poderá isso ter no jogo com o Benfica?
ANTÓNIO SALVADOR - Mudanças de treinadores obrigam a um tempo de encaixe e de adaptação. Tenho a certeza de que a equipa vai fazer tudo para dar uma boa resposta em casa. Não há razões para haver desassossego.
A demissão de Carvalhal surpreendeu muita gente. A si também?
Apanhou-me desprevenido. Continuo a acreditar que teria capacidade para consumar os objectivos que lhe foram propostos. Partiu dele a vontade de sair, por razões pessoais. Fiz tudo para o demover da decisão e, aliás, a minha linha de conduta tem sido essa - em alturas de contestação ao Jesualdo Ferreira, fui o primeiro a vir a público para segurar o treinador.
Correram rumores de indisciplina, que punham em causa a autoridade de Carvalhal. Tomou conhecimento de algum problema?
Nunca houve problemas de indisciplina, nem com Carvalhal nem com a anterior equipa técnica.
Tentou contratar José Peseiro e acabou por assegurar Rogério Gonçalves. O que está na base dessa aposta?
Pelo percurso ascensional do Rogério e pelo excelente trabalho que estava a fazer na Naval, considerei-o logo a pessoa ideal. E, ainda por cima, é minhoto, de Viana do Castelo.
Os clubes mais sonantes treinados por ele foram a Naval, o Varzim e o Leixões. A experiência modesta não lhe trará problemas de afirmação num plantel com jogadores internacionais e personalidades fortes?
Para se impor respeito, não é preciso ter currículo. É preciso carácter forte e vontade férrea de mostrar resultados. Essas qualidades sobejam no Rogério. É acessível, tem ideias bem definidas e fiquei bem impressionado com os métodos de treino que utiliza. Posso dar exemplos de outros que treinaram grandes equipas e até foram campeões sem currículo. Lembro-me do Fernando Santos quando foi para o FC Porto: tinha muito menos currículo do que o Rogério. O Paulo Bento é outro exemplo.
Gosta de trabalhar com minhotos, mas contratou o portuense e portista Jorge Costa para adjunto, antes de avançar para Rogério Gonçalves. Porquê?
Não faço questão de ter só gente do Minho, até porque quero os melhores profissionais, sejam de onde forem. Depois, não contratei Jorge Costa antes de falar com o Rogério: ele apadrinhou a ideia, motivado pelo facto de o Jorge ser carismático e ter um passado de referência para os jogadores.
Jorge Costa está no Braga para impor uma nova ordem ou será um complemento da autoridade de Rogério Gonçalves?
Nenhum treinador contribui solitariamente para o rendimento de um plantel. Por isso se fala em equipas. O Jorge Costa é adjunto do Rogério. A nova equipa técnica é a ideal para dar sequência ao engrandecimento do Braga e o bom entendimento entre o treinador e os adjuntos vai ajudar o Braga a manter-se em níveis de rendimento e de competitividade muito altos.
O que pediu à nova equipa técnica?
Um alinhamento pelo modelo de trabalho que tem sido levado a cabo desde o tempo do professor Jesualdo Ferreira. E que trabalhasse de uma forma séria, condizente com a personalidade do treinador, dos outros profissionais que o acompanham e desta SAD. Em termos de objectivos, falei, no mínimo, no quarto lugar e em tentarmos subir mais um degrau na Taça UEFA.
Na última assembleia, exigiu aos sócios uma comparência em massa no estádio. É um drama não encher o estádio?
É uma realidade que não reflecte o crescimento sustentado do clube. Quando eu e os meus pares da administração chegámos (faz quatro anos em Fevereiro), foi com uma missão clara: resolver o problema financeiro da SAD e, depois, o desportivo. Isso foi conseguido e não é fácil conjugar bons resultados no campo com lucros de exploração, até porque estamos obrigados a vender, pelo menos, dois jogadores por época. Fizemo-lo com o recurso a profissionais dignos e capazes, mas a região continua a não apoiar da maneira que desejaríamos e que o clube merece. Começámos com 12 mil sócios, temos 23 mil, mas é imperioso chegar à barreira dos 30 mil. Temos apostado no merchandising, há uma política de comunicação nova, tentamos enfatizar o contributo do Braga na valorização da região. Ainda há um caminho longo a percorrer.
Porque é que os bracarenses não aderem ao seu clube como os vimarenses ao Guimarães?
Braga tem uma população flutuante, feita de jovens que vieram para a Universidade e de gente de longe que vem em busca de emprego. Possivelmente, isso faz com que as pessoas conservem a paixão por outros clubes. Em Guimarães, a população é mais fixa, há mais vimaranenses de origem, logo o bairrismo e o apego pelos emblemas da terra são maiores.
Já fez os minhotos sonharem com o título. Quando é que veremos o Braga campeão?
O Braga tem potencial para lutar pelo título, mas só o conseguirá de facto quando a cidade começar a encher o estádio, ou seja, quando os adeptos quiserem. O nosso grande desafio tem sido a qualificação dos recursos humanos do clube, para uma maior eficiência desportiva e directiva. Hoje, o Braga é um clube atractivo até para os jogadores, que sabem que vão ser valorizados e poderão saltar do clube a qualquer momento. As condições para lutarmos pelo título estão a ser criadas, mas não podemos marginalizar o papel da região, que é importantíssimo.
A equipa encaixou sete golos nos últimos dois jogos. Vai contratar reforços em Janeiro?
Os empréstimos do João Tomás e do Kim deram-nos um encaixe interessante que nos permite contratar mais jogadores, se o Rogério assim o entender.»
"Há uma relação de confiança
com Jorge Mendes que tem sido profícua"
«A saída de Artur Monteiro, após nove anos como director executivo, foi mal digerida por muitos adeptos. Não se incomoda com isso?
Não houve despedimento, simplesmente ele considerou que não se encaixava num formato de trabalho a tempo inteiro, por ter outras ocupações além do Braga. Fez um trabalho importante, ajudou o Braga.
A relação do Braga com Jorge Mendes é estreita. Existe dependência do clube em relação a esse empresário?
Há uma relação de confiança que tem sido profícua para ambas as partes, sobretudo para o Braga. Ele é o melhor empresário, o que tem mais conhecimentos na Europa e no mundo e o que traz mais vantagens para o Braga. Esperamos que seja uma relação duradoura sem menosprezo para os outros empresários com quem trabalhamos.»