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cardoso
  Art. DM: Política e Futebol
« em: 22 de Outubro de 2009, 10:39 »
O recente período eleitoral, com os seus folclóricos desfiles de campanha, fez-me reflectir, mais uma vez, na crescente semelhança entre o mundo da política eleitoral e o da bola. Dir-me-á o leitor que são dois mundos incomparáveis, até porque as mudanças políticas afectam de forma muito mais séria a vida das pessoas. Mas… será que alteram?
Cada vez mais, as disputas eleitorais são vistas como se fossem confrontos entre clubes de futebol. Acena-se a bandeira do partido da mesma forma que se acena a do clube; pouco importam as ideias, os projectos e as obras feitas ou a fazer. As discussões em torno da política usam, cada vez mais, um vocabulário futebolístico que denota esse objectivo primordial e mesmo único: vencer o adversário. Os próprios festejos eleitorais assemelham-se a celebrações de vitórias futebolísticas. Os comícios e as “arruadas” assemelham-se a manifestações de adeptos, a festas de claques entusiasmadas pelo som, pelos efeitos especiais, pelas palavras de ordem, numa palavra, pela imagem.
Os debates políticos resumem-se a confrontos de onde tem de sair obrigatoriamente um vencedor e um vencido. Ora esse vencedor é o que tem melhores ideias? É o que tem melhores projectos? Não, é o que convence pelo verbo! Pela arte de bem falar e pela imagem.
No futebol como na política, mais importante do que vencer é derrotar o adversário; mesmo que o adversário tenha razão, não convém concordar. Quando um clube dito “grande” perde, é sempre mais fácil arranjar uma resma de desculpas do que dizer, simplesmente: “eles jogaram melhor”. Da mesma maneira, quando um político perde prefere sempre atirar a responsabilidade para cima dos eleitores (seus ou dos outros) em vez de reconhecer onde erraram; na política como no futebol.
No futebol, os grandes vencedores são os que têm mais meios, mais poder, mais influência na arbitragem e nas estruturas dirigentes. E na política? Cada vez mais, vencem aqueles que cultivam a imagem e a palavra: as duas grandes bases de poder e de influência. Tal como no futebol ganham os que cultivam a imagem; os que melhor “vendem o seu peixe”. Muito mais importante do que saber de finanças é falar de finanças sem dizer asneiras, nem que seja ficando calado e limitando-se a… aparecer! No futebol, muito mais importante do que saber jogar à bola é mostrar que se dominam os meandros, sem entrar em conflito com os que detêm o poder; é o velhinho “estar bem com todos”, resguardando também aquela velha máxima “nunca se sabe quando vou precisar dele…”.
Muita coisa já poderia ter mudado no nosso futebol se algumas pessoas se convencessem que nada se muda quando elegemos como estratégia estar sempre do lado de quem detém o poder. É preciso ser contestatário; no entanto, contestar provoca conflitos; é um caminho difícil e o ser humano tem uma tendência inata para eleger o mais fácil como melhor. Na política como no futebol, colaborar com os outros é tarefa proibida; os outros nunca têm razão.
Mais do que no futebol, mais do que na política, é em todos os aspectos da vida que vemos triunfar este egoísmo, esta tendência feroz para ignorar os outros e olhá-los sempre como adversários. Todos sabemos como, na política, ficaríamos a ganhar com uma maior colaboração entre adversários políticos, com um espírito colaborativo que a todos devia ser conveniente. E também no futebol tudo seria diferente se deixássemos de ver os adversários como inimigos, antes como parceiros numa actividade que se pretende lúdica e que, portanto deveria contribuir apenas para a felicidade de todos nós.