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Prioridades

inda nos vamos surpreendendo com aquilo que as capas dos jornais desportivos nacionais vão publicando, a despeito de estarmos habituados a escolhas sui generis e parciais. A conquista da supertaça em futebol feminino pela equipa do Sporting de Braga não mereceu nenhuma referência, por mais pequena que fosse, na capa de nenhum dos desportivos mais vendidos. O futebol em forma de salto alto não vende, diziam-me alguns, quando indignada referenciava a ausência da menção ao feito das atletas bracarenses nos holofotes de uma primeira página. Qual não é o meu espanto quando um clube que milita na segunda divisão do futebol feminino teve direito, recentemente, a referência em capas de jornais por ter ganho por vinte e oito a zero a um clube da zona de Loures. Dir-me-ão que realmente vinte e oito a zero quase que parece anedota e que as anedotas merecem primeira página, mesmo que os clubes sejam da segunda divisão. Afinal andamos entretidos com os chistes de Bruno de Carvalho durante meses e meses nas capas dos jornais e fomos sorrindo ou chorando consoante as nossas preferências clubísticas.

A equipa de futebol feminino do Ponte Frielas levou vinte e oito golos do Benfica. É nesta altura que vocês percebem que, apesar do clube encarnado se encontrar na segunda divisão, uma águia ao peito ainda tem peso. Pena não terem dito, também na primeira página, que a goleada só aconteceu porque o Frielas ficou sem as duas únicas guarda-redes que tem e teve de ser uma jogadora que costuma ser habitualmente central a deslocar-se para a baliza para não perderem o jogo por falta de comparência. Liliana Roriz, a jogadora que estoicamente se voluntariou para ir para a baliza da equipa de Loures, quiçá por ser agente da PSP e estar habituada aos disparos, costuma utilizar as suas mãos apenas para as tarefas rotineiras do seu dia-a-dia e nunca na vida tinha estado à frente de uma baliza com necessidade de a defender dos tiros das adversárias. O resultado foi o que foi e assim se glorificou o feito de uma equipa paga e bem paga e com condições extraordinárias de trabalho e se humilhou um grupo de raparigas que paga os equipamentos do seu próprio bolso e que tem como recompensa uma sandes no final de cada jogo. Prioridade dos nossos jornais para quem qualquer flatulência dos três ditos grandes, seja em que modalidade for, tem direito a paragonas.

Realce ainda para a descoberta dos súbitos ataques de amnésia que têm vitimado Luís Filipe Vieira. Há mesmo quem acredite neles, apesar do timing suspeito em que ocorreram. Desconhece-se o trauma ou a lesão que gerou tão súbito olvido, embora eu tenha cá para mim que sonhos recorrentes com toupeiras e visões de e-mails do diabo tenham concorrido para noites mal dormidas originando um stress mental grave que conduziu a esquecimentos específicos pouco antes de ser ouvido pelo Ministério Público como representante legal da SAD do Benfica. Não será de estranhar que nos próximos dias venha a padecer também de súbitos ataques de claustrofobia. É que um dia destes não há jogo nenhum do Benfica que não seja jogado à porta fechada. A águia sujeita-se a ser, a curto prazo, um animal em cativeiro.

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